Dentre todas as formas tradicionalmente utilizadas para se classificar os diversos planos da natureza, aquela que creio mais conveniente e que mais me utilizo é a divisão cabalística dos quatro mundos. Apesar de ser uma divisão artificial visto que as barreiras entre os mundo não são nítidas como poderíamos supor a partir de um estudo teórico, uma serie de fenômenos e experiências comuns podem ser usadas para diferenciar e navegar por essas regiões.
Estar ciente das diferenças entre os planos é importante para diferenciar o aprendizado e riscos que cada uma dessas regiões oferece. Muitos são os videntes que, em sua ignorância de tais princípios básicos tornam-se de tal forma intoxicados pela visão que passam a avaliar suas próprias experiências de forma completamente desproporcional.
Assiah
É o mundo material por excelência. Ele é percebido principalmente por meio da percepção sensorial dos órgão físicos. Esse mesmo mundo pode ser percebido por modalidades especificas de desdobramento.
Essa modalidade de desdobramento necessita do que geralmente é chamado de “substancia etérea”, uma substancia de natureza material que é encontrada em seres vivos e especialmente no sangue. Um corpo de luz saturado dessa substancia permanece de tal forma próximo ao plano físico que é capaz de percebê-lo quase sem distorção, como se observando-o por meio de sentidos físicos.
Yetsirah
Este é o plano astral em sua forma mais característica. Ele é percebido especialmente por meio da imaginação e pelo sonho, sendo por isso filtrado pelo inconsciente do vidente. A melhor forma de descrever esse mundo é compará-lo ao mundo de Alice no Pais das maravilhas. Nele não existem lugares, mas egregoras, não existem paisagens, mas símbolos, é um universo onde símbolo e consciência são a realidade. Esse plano é de tal forma exótico que parecem funcionar em sua própria lógica.
A experiência desse plano é inconfundível, pois ela é, a principio, extremamente incoerente. Porem isso é devido a uma falha da mente consciente (ruach) pouco acostumada com o mundo onde sua irmã, a mente subconsciente (nephesh), habita.
O grande perigo desse plano é que sem compreender as suas regras é possível realizar infinitas formas de confusão. Isso ocorre também pelo fato de que a mente subconsciente, antes percebida como “interior” passa a ser percebida como “exterior”, graças a um constante processo de projeção. Assim a Visão torna-se cheia de seres que nada mais são que “ecos” ou fantasmas gerados pela mente subconsciente. Identificar esses ecos e mesmo controlar sua projeção faz parte do complexo processo de educação que o vidente deve submeter-se.
A capacidade de deslocar-se dentro de Yetsirah depende unicamente da capacidade de polarizar o subconsciente (nephesh) com a região que se deseja visitar. A forma mais eficiente de se fazer isso é por meio de rituais e símbolos pois estes são a linguagem do próprio subconsciente.
Outra característica desse plano é a sua “energia”. Aqui emoções e sentimentos são a própria substancia da qual yetsirah é feito. Isso faz com que a visão tenha efeitos tão diretos e poderosos sobre o subconsciente (nephesh) que ele pode facilmente tirar o consciente (ruach) dos trilhos. O mais cético vidente pode ser levado a acreditar na mais descarada mentira simplesmente pela força emocional e sugestiva da visão. A perda da sobriedade deve ser o mal mais temido pelo vidente.
Ao longo desse Blog irei me referir aos seres que habitam essa região pelo nome genérico de daemons. Essa palavra, em sua conotação helênica, não passa de um termo genérico para entidades sem corpo porem sem um caráter divino (Briah).
Briah
Se Yetsirah era percebido por meio do subconsciente (nephesh) , Briah é percebido por meio do superconsciente (neshemah). Esse plano só pode ser penetrado meio de um estado profundo e prolongado de concentração e quem o faz merece ser verdadeiramente chamado de místico.
Este plano é a região onde a consciência manifesta-se na sua forma mais pura. Se Yetsirah é um plano onde símbolos são seres vivos e ativos, Briah é o lugar onde os conceitos abstratos são entidades reais. Se Yetsirah é o mundo onde os sonhos são reais, Briah é o mundo onde o mito é a realidade. É um plano naturalmente onde a forma não existe, sendo que essas são naturais de Yetsirah.
O perigo oferecido por esse mundo é principalmente devido ao vidente. O impacto dessas realidades puras pode tirar completamente do eixo um nephesh desequilibrado. Por outro lado, mesmo um nephesh equilibrado ira distorcer a percepção desta visão em maior ou menor grau, sendo por isso necessário uma educação continuada de todos os níveis da mente.
Um fato curioso sobre Briah é que nele, apesar de ainda existir dualidade, a separatividade deixa de existir. Duas idéias antagônicas param de ser percebidas como duas coisas distintas e passam a ser vistas como uma coisa só. Em uma analogia mais conveniente, em Yetsirah cada face de uma moeda é percebida como uma moeda diferente, em Briah as duas faces são percebidas simultaneamente e irremediavelmente indivisíveis.
Os habitantes desse mundo serão genericamente chamados de Anjos ou Deuses, dado a natureza essencialmente transcendental que esses nomes abrigam.
Atziluth
Sobre este mundo sabemos muito pouco. Ele é de tal forma distinto de Briah como Briah é distinto de Yetsirah. Pouco pode ser dito alem de que os entes que aqui habitam são geralmente chamados de “nomes de Deus” ou “formulas”. É um mundo de tal forma abstrato que a diference entre uma coisa e outra, como somos capazes de conceber, simplesmente inexiste. Se em Briah vemos a moeda como tendo duas faces, em Atziluth não vemos mais a moeda, mas sim o metal da qual ela é feita e todas as possíveis faces que podem ser cunhadas nesse metal. É o plano do puro potencial.
De Assiah para Yetsirah
Chegar a Yetsirah é possível mediante ao uso da abstração sensorial. Sem os sentidos a ligação entre a consciência e o mundo material se dissolve e os sentidos de nephesh, antes eclipsados pelos sentidos, acordam.
A manifestação de Yetsirah em Assiah se da por meio da “substancia etérea”. Um daemon só pode se aproximar do mundo material se ele receber um “corpo” feito dessa substancia, sem isso a barreira entre os planos é praticamente intransponível. É essa mesma substancia que permite que estejamos ligados aos nossos corpos. Com a morte não existe mais corpo para conte-la e aos poucos a nossa ligação com o mundo
De Briah para Yetsirah
Passar de Yetsirah para Briah envolve o mesmo processo de desligar os sentidos de Yetsirah, o único detalhe que isso envolve interromper todo processo de pensamento e atingir aquela forma de ecstasi que é chamada de Samadhi pelos orientais. Com a voz de ruach e nephesh silenciadas os olhos de neshemah se abrem e contemplam o mundo de Briah.
Os Anjos de Briah podem se manifestar no plano de Yetsirah se for fornecido a eles um corpo da substancia de Yetsirah, em outra palavras, uma imagem mágica analogicamente alinhada com o Anjo. Se essa imagem é construída adequadamente e devidamente purificada a consciência do Anjo se “encarna” nela e passa a se comportar, temporariamente, como um daemon.
Hanistarot la-Adonay Eloheynu vehaniglot lanu ulevaneynu ad olam
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